Radar · Voices

08.05.26

Sexta-feira Edição nº 189

Colleges, Maybe Try Teaching!

§ 01

A leitura do dia

Quatro peças disputam o dia. Yglesias volta ao cavalo de batalha — Trump cai nas pesquisas, e democratas tentados a copiar a "energia disruptiva" copiariam, na verdade, o fracasso. Ben Thompson disseca a virada do Microsoft do per-seat para o "seats + consumption" e a confissão de Apple de que virou cliente número dois na TSMC, atrás da demanda de IA. Noah Smith defende a economia do desenvolvimento contra a acusação de Fernández-Villaverde de que abandonou as grandes perguntas — argumenta que o problema não é falta de ambição, é que história só acontece uma vez. Deresiewicz vence porque tem o objeto no centro com o peso de manifesto: dezesseis semestres de educação geral, retorno do canon, distinção dura entre cidadão e ativista, defesa da literatura como forma de conhecimento que não entrega resposta — entrega tensão. É a peça mais densa e mais Mill da semana, e a única que liga, num só argumento, o que liberalismo educa, o que liberalismo lê, e o que liberalismo aceita não resolver.

William Deresiewicz (Persuasion / Yascha Mounk)

Colleges, Maybe Try Teaching! — Persuasion

Deresiewicz começa pela palavra. Liberal em "educação liberal" e liberal em "democracia liberal" são a mesma palavra — referem-se à liberdade política da Atenas antiga, da Roma republicana, dos Founders americanos: não a libertária ausência de coerção, mas o autogoverno coletivo de iguais cívicos. Educação liberal é a forma de ensino que prepara o indivíduo para o exercício dessa liberdade; educação servil, no termo de Aristóteles, é a que mira a mera utilidade. Para Deresiewicz, a degradação do segundo liberal é continuação direta da degradação do primeiro. Daí o ataque ao currículo. Universidades de elite americanas substituíram cidadania por "mudar o mundo"; o aluno é doutrinado a ser ativista, não cidadão, e Deresiewicz separa as duas posturas com a mesma clareza com que Sontag separava conceitos: ativista divide (nós vs eles), cidadão une (nós); ativista vê o discordante como inimigo a eliminar, cidadão tolera; ativista diz "vão embora", cidadão diz "estamos juntos nessa, droga". A receita prática é radical: dezesseis semestres de educação geral obrigatória — fundação americana, pensamento político 19/20, literatura americana, literatura ocidental, filosofia ocidental, história europeia, história global, dois cursos de civilizações não-ocidentais. Que prevena o engenheiro de empilhar 20 cadeiras de major. Que reabra o canon "para reclamá-lo da direita ignorante e da esquerda do dead white male". O argumento mais original aparece no meio: literatura é forma de conhecimento. Não é entretenimento, não é ornamento, não é exercício de empatia. É a maneira como toda cultura transmite o que aprendeu sobre como o mundo vai. E o que ela transmite são tensões, não soluções: Antígona e Creonte não estão errados nem certos — estão presos numa tragédia, no sentido hegeliano de "conflito entre dois direitos". A maturidade política, conclui, é a aceitação da tensão, e isso a literatura ensina como nenhum outro gênero ensina. O fecho é prático e duro: a maior parte do que se publica em pesquisa universitária deveria simplesmente parar; o professor médio deve voltar a ser professor.

Relevância para Pedro: Para o livro NR, capítulo do Globo como educadora cultural, Deresiewicz oferece a frase que falta na justificativa: a Globo fez o que a universidade pública americana hoje não faz — formar cidadão pela narrativa, não ativista por pauta. Para a coluna do Globo, é a peça contra a esquerda identitária e contra a direita anticanon ao mesmo tempo, em parágrafos que cabem no espaço da coluna sem corte. Para PdP de quarta sobre democracia liberal, abre com a etimologia do liberal duplo (educação e política, mesma palavra, mesma luta) — fecha o roteiro em três minutos sem precisar do jargão de teoria política.

🔗 Colleges, Maybe Try Teaching! — Persuasion


§ 02

Textos lidos na íntegra

Ben Thompson

Microsoft Earnings, Apple Earnings — Stratechery

Microsoft fechou trimestre com vendas de 82,9 bilhões — alta de 18%. Capex de 2026 vai a 190 bilhões, mais 61% sobre 2025. A novidade não está nos números; está na frase que Satya Nadella e Amy Hood repetiram na chamada com analistas: o modelo do Microsoft 365 deixa de ser "seats" e passa a "seats plus consumption" — licença por usuário mais medidor de uso, igual Azure. Thompson identifica a confissão por trás da reformulação: agentes substituem ou reduzem o número de pessoas necessárias, o que reduz o número de licenças vendidas; a alternativa é cobrar pelo uso de quem sobrou. A grande dúvida que ele levanta não é técnica, é interna: como a Microsoft incentiva a própria força de vendas a empurrar um modelo com receita imprevisível? A segunda metade da peça é Apple, e a virada é mais dura. Tim Cook anunciou que o trimestre teve "iPhone-era record" de margem (49,3%), mas avisou que custos de memória vão ser significativamente mais altos a partir de junho. Apple admitiu que subestimou a demanda por Mac Mini e Mac Studio — Thompson notou em texto antigo que a demanda viria, e a própria Apple não considerou a hipótese seriamente. A causa concreta é o boom de workflows agênticos como o OpenClaw, que rodam em CPU local e usam LLMs em nuvem (a CPU é mais ocupada que a GPU). E a TSMC não tem capacidade para dar mais chips A19 Pro nem A18 Pro à Apple — pela primeira vez na memória recente, Apple é a "segunda prioridade" da fundição. Thompson é seco: esse é o verdadeiro poder da IA — até a Apple, que dita termos a fornecedores há quinze anos, foi rebaixada na fila.

Relevância para Pedro: Para o livro Ideologia no Vale, capítulo sobre captura de plataforma, Thompson entrega o caso empírico que falta: o incumbente do Vale (Microsoft) admite que o modelo de licença per-seat já não funciona, e o outro incumbente (Apple) admite que perdeu a primazia na cadeia de suprimentos. Os dois sintomas pertencem ao mesmo capítulo. Para a coluna do Globo sobre IA, o número de "Apple, segunda prioridade na TSMC" é manchete antes de ser argumento. Para PdP de segunda sobre tech, o "seats + consumption" é a tradução prática da mudança que vinha sendo descrita só em termos abstratos.

🔗 Microsoft Earnings, Apple Earnings — Stratechery


Matthew Yglesias

Don't copy Donald Trump's failed presidency — Slow Boring

Yglesias parte de um dado simples e o usa como martelo. Trump começou o segundo mandato com aprovação maior que em qualquer ponto do primeiro. Caiu quase imediatamente. Em maio de 2026, está abaixo do pior trecho de 2017-2020. A pergunta que organiza a peça é a que algumas vozes democratas têm feito desde o início do ano — "como copiamos a velocidade e o controle de pauta de Trump?" — e a resposta de Yglesias é terça: copiar fracasso é fracasso. A frase central da peça é direta: "Por que estamos tentando copiar fracasso?" O Project 2025, que era para ser blueprint, virou fiasco tão público que ajudou democratas a se reorganizarem sem precisarem de respostas próprias para os problemas próprios. A energia inicial — decretos, demissões, choques semanais — não era governança, era performance, e a performance produziu paredes em prazos curtos. A peça não argumenta contra rapidez; argumenta contra confundir rapidez com competência. E pede aos democratas o oposto do gesto trumpista: voltar a tratar política como problema técnico de coalizão, com prazos de Congresso, e não como série de Netflix.

Relevância para Pedro: Para a coluna do Globo, Yglesias arma o argumento contra qualquer assessor lulista que esteja recomendando "tom Trump". Para PdP de sexta sobre 2026, é a frase de fechamento contra Tarcísio se ele tentar herdar a coalizão Bolsonaro pela performance e não pela operação — herdar fracasso é herdar fracasso. Para o livro NR, capítulo sobre velocidade da Nova República, Yglesias oferece o paralelo americano para a tese do vault de que velocidade não produz consenso — produz exaustão.

🔗 Don't copy Donald Trump's failed presidency — Slow Boring


Noah Smith

Could development economics be more useful? — Noahpinion

Smith responde ao economista Jesús Fernández-Villaverde, que acusou a economia do desenvolvimento de ter abandonado as grandes perguntas — "por que a Coreia do Sul ficou rica e a Bolívia não?" — em troca de RCTs estreitos sobre se programa X aumenta a frequência escolar em Y por cento. A resposta de Smith tem duas pontas. A primeira é defensiva e empírica: a crítica é exagerada, só 13-31% dos papers de desenvolvimento usam RCT, o restante segue investigando instituições, geografia, capital humano, industrialização, cultura, falhas de coordenação. A segunda ponta é concessiva e mais interessante: o problema real é metodológico, não de ambição. "História só acontece uma vez." A Coreia ficou rica por uma combinação de geografia, educação, capacidade burocrática, política industrial, ameaça de segurança — atribuição causal é praticamente impossível, e os instrumentos disponíveis (regressão entre países, modelos estruturais, história narrativa, micro-economia) cada um tem buracos sérios. A imagem de Smith é boa: modelos estruturais são como escovas de dente — todo mundo tem uma, ninguém quer usar a do outro. Conclusão é humilde: não pressionar economistas do desenvolvimento por respostas grandes em tempo real; esperar IA permitir análise em escala de sociedade.

Relevância para Pedro: Para a coluna do Globo sobre Brasil-EUA-China em 2026, Smith dá a desculpa metodológica honesta para por que comparações fáceis ("o Brasil é igual à Argentina dos anos 1980") são quase sempre ruins — não é falta de leitura, é o problema epistêmico de Smith. Para o Meio, é também a defesa indireta do papel do jornalismo de longo prazo: onde a econometria tropeça em causalidade, a narrativa histórica anda, com humildade. Para o livro NR, é lembrete operacional — a tese sobre a Nova República não precisa explicar tudo; precisa enquadrar bem o que é específico.

🔗 Could development economics be more useful? — Noahpinion


§ 03

Publicados mas sem acesso

3 itens
  • Halina Bennet — "Are we kind of being pricks?" (Slow Boring, guest writer). Caso de Marblehead, Massachusetts: zoneamento MBTA forçou cidade a permitir mais habitação, moradores resistiram, e um deles reconheceu, em audiência pública, que a resistência era própria. Bennet argumenta que incentivos legais para habitação dependem da disposição local — a NIMBY ainda é o gargalo, mesmo com lei a favor.
  • Persuasion — "The New Normal of Holding Federal Workers Hostage". Sobre a normalização do shutdown como ferramenta política e os três danos sistêmicos: perda de accountability orçamentária, enfraquecimento institucional do Congresso, desvalorização do funcionalismo (350 mil saídas desde janeiro de 2025).
  • Noah Smith — "Barack Obama was a successful President" (republicação de texto antigo). Smith republicou de propósito por estar irritado com progressistas que tratam Obama como fracasso; defende ARRA, Obamacare, Dodd-Frank.

§ 04

Conexões entre as vozes

Deresiewicz × Yglesias. Os dois descrevem, em domínios distintos, a mesma decisão de fundo: o liberal sério recusa imitar a forma do iliberal mesmo quando a forma do iliberal está vencendo no curto prazo. Deresiewicz recusa o ativismo como modelo educacional porque ativismo divide e cidadania une — mesmo que ativismo encha sala de aula e cidadania pareça chata. Yglesias recusa a velocidade trumpista como modelo democrata porque velocidade-sem-governança produz fracasso — mesmo que velocidade encha clip e governança não vire viral. A leitura conjunta entrega o que nenhum dos dois entrega sozinho: o liberalismo tem uma forma própria, lenta e civicamente entediante, e a tentação de copiar a estética do adversário é a forma mais comum de perder o que se está tentando defender. A civilidade é o conteúdo, não o invólucro.


§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

William Deresiewicz — "Colleges, Maybe Try Teaching!" × [[O Diplomado Exausto — O Ensino Superior no Centro que Rejeita a Polarização]] Tipo (Boden): exploratória

A leitura conjunta revela que o "diplomado exausto" brasileiro e o aluno-ativista da elite americana são dois fenótipos da mesma falha — universidade que abandonou a formação do cidadão — e que o ensaio do vault, lido contra Deresiewicz, ganha um teste de consistência que ainda não tem.

O ensaio do vault descreve um centro educado de cerca de 28% dos diplomados que rejeita igualmente os dois polos da polarização brasileira: 86% dos diplomados rejeitam pelo menos um dos dois líderes, e o gradiente é linear — quanto mais diploma, mais rejeição dupla. A interpretação proposta é que o diplomado exausto é o órfão do tucanismo, sem endereço institucional. Deresiewicz, do outro lado, descreve um aluno de Harvard ou Yale que sai treinado para ser "ativista, não cidadão" — soldado em guerra cultural, divisor por ofício. À primeira vista parecem opostos: um é desengajado, o outro é hiperengajado. O laço é por forma à Warburg: nas duas geografias, a universidade deixou de formar cidadão. Em ambos, a falha tem o mesmo formato — abandono do canon como vocabulário comum, abandono da literatura como ensino de tensão sem solução, abandono da lenta arquitetura de instituições. As consequências divergem por contexto. Nos EUA, onde polarização institucional ainda permite militância identitária funcionar como rota de status, a falha produz o ativista. No Brasil, onde a polarização institucional perdeu credibilidade nos dois lados (PT desgastado, bolsonarismo judicializado, PSDB morto), a mesma falha produz a desistência — o "branco/nulo" do diplomado exausto é o ativista frustrado que nunca encontrou tribo. A tese central do ensaio do vault — diplomado exausto é problema de oferta política, não de demanda — fica esticada por Deresiewicz: pode ser também problema de formação, de uma educação que nunca os preparou para inhabitar a tensão sem precisar resolvê-la. O Antígona-Creonte de Deresiewicz é o que falta no curso de ciências políticas brasileiro, e talvez seja por isso que o brasileiro educado, ao ver dois lados em conflito, escolhe não escolher — não porque os dois sejam iguais, mas porque nunca aprendeu que aceitar tensão sem resolução é uma postura. Para o livro NR, o cruzamento abre uma coluna nova de leitura do diplomado exausto: o problema não é só institucional, é pedagógico, e a solução não é só novo partido, é nova escola de cidadania.


Ben Thompson — "Microsoft Earnings, Apple Earnings" × [[As Ideologias do Vale do Silício — O Marxismo Invertido dos Bilionários]] Tipo (Boden): exploratória

A leitura conjunta revela que a "revolução gerencial ao contrário" descrita no ensaio — capital empreendedor retomando das instituições gerencialistas o controle que Burnham achava perdido — está sendo, ela mesma, capturada por uma terceira camada que o ensaio ainda não nomeia: a infraestrutura de IA, que nem Microsoft nem Apple controlam.

O ensaio do vault propõe que Musk, Thiel, Andreessen e companhia usam Burnham invertido: bilionários se apresentando como vítimas da Catedral progressista, mobilizando a teoria marxista da classe gerencial para justificar uma retomada de controle pelo capital. Ironia documentada: capital construindo nova Catedral usando a teoria que dizia que capital havia perdido. Thompson, no relatório de earnings, mostra a fase seguinte. Microsoft, incumbente clássico do managerial revolution, anuncia que o modelo de "seats" — licença por usuário, base do controle de M365 — está se reformulando em "seats plus consumption", porque agentes (que a Microsoft hospeda mas não monopoliza, abrindo Copilot a Anthropic) reduzem o número de assentos necessários e mudam o ponto de monetização. Apple, incumbente icônico de cadeia de suprimentos, admite ser "segunda prioridade" na TSMC: perdeu lugar para a demanda de IA generalista que ela mesma não controla. O laço é por forma à Warburg: o gesto descrito no ensaio (capital se reapropriando do controle institucional) está sendo replicado um andar acima — uma quarta camada (a infraestrutura agêntica), distribuída entre OpenAI, Anthropic, TSMC, fabricantes de memória, está extraindo do incumbente do Vale o controle que o ensaio descrevia como reconquistado. Em termos de Boden, é exploratório porque estica o conceito do vault sem rompê-lo: Burnham invertido não é refutado, é levado um passo além. Os bilionários do Vale, recém-vitoriosos sobre a classe gerencial progressista, agora descobrem que a vitória os colocou diante de uma camada nova de fornecedores e modelos que joga o mesmo jogo deles, com a mesma lógica de captura de plataforma. Para o livro Ideologia no Vale, a peça do Thompson é o capítulo que falta: a sequência empírica do ciclo Burnham-invertido, o que o vault descreve em tese ganhando o caso concreto que data o argumento. Para a coluna sobre IA, Apple-segunda-prioridade-na-TSMC é manchete que sintetiza o argumento todo num número.


§ 06

Ponte com o Brasil

A leitura combinada de Yglesias com o caso brasileiro entrega, para a próxima coluna sobre 2026, uma frase de operação. Qualquer assessor que esteja recomendando ao PT que copie tom Trump — agressividade, velocidade, controle de pauta — está recomendando que o partido herde fracasso. Qualquer assessor que esteja recomendando a Tarcísio que herde a coalizão Bolsonaro pela performance — boné vermelho, decretos diários, retórica de inimigo interno — está recomendando que o candidato repita o mesmo erro que já está derretendo Trump nas pesquisas. A pergunta operacional é a mesma de Yglesias: por que copiar fracasso? E é a mesma pergunta que Deresiewicz faz, em outro registro, ao currículo: por que treinar ativista quando a estatística mostra que ativista perde a próxima eleição em mais lugares do que cidadão perde?


§ 07

Top of mind

1 item
  • Reel de Jake Van Clief (5/maio, "agentes são infraestrutura, não empresa"): Van Clief argumenta, em 1m16s e cinco analogias históricas (1998 → 2026), que o erro recorrente é tentar competir com quem constrói infraestrutura quando a chance grande é construir em cima dela — Netflix sobre AWS, Uber sobre 3G, Airbnb sobre internet. Conecta com Thompson em par perfeito: enquanto Microsoft tenta capturar a infraestrutura agêntica via "seats + consumption" e Apple amarga ser cliente número dois na TSMC, a sugestão de Van Clief é que a oportunidade de fato não está nos dois — está nas empresas que ainda não nasceram, montadas em cima do que esses gigantes estão sendo forçados a abrir. Para PdP sobre IA, é o gancho prático que o argumento abstrato pedia.