Manchete do dia
A Anthropic anunciou no sábado, 18, que vai pôr 5% das suas ações num fundo de benefício público. Se o valor da empresa subir 50%, o fundo ganha mais 2%, e assim a cada nova alta de 50%. A própria Anthropic controla a entidade. A governança, ou seja, quem escolhe o que o dinheiro financia, só vai ser "detalhada nos próximos meses". O anúncio diz quanto vai para o fundo e como a fatia cresce. Não diz quem decide como gastar. (TechCrunch)
O gatilho de 2% esconde uma inversão. Uma doação costuma separar quem dá daquilo que foi dado: o cheque sai, e o destino dele deixa de depender do caixa de quem assinou. Este fundo faz o contrário. Ele recebe ações, não dinheiro, e só cresce se a empresa crescer. Quem um dia receber dele fica sócio da aposta, e o bem público passa a torcer pela valorização. É uma fundação que funciona como plano de opções. Tem bons motivos para dar certo e nenhum para dizer não à empresa.
A melhor objeção é simples: ainda é cedo. A Anthropic prometeu a governança para os próximos meses, e cobrar o que não foi publicado é julgar por antecipação. Só que o setor já viu essa ordem dar errado uma vez. A OpenAI nasceu com um conselho sem fins lucrativos que devia lealdade "à humanidade", e esse desenho caiu em cinco dias de novembro de 2023, quando dinheiro e missão se chocaram. Na OpenAI, a regra existia e cedeu. Na Anthropic, o dinheiro já tem regra e quem decide ainda não tem.
O tema vence hoje porque o anúncio sai na semana em que a Economist conta que as dívidas da indústria de IA deixam os investidores nervosos. O fundo é pago na moeda que o mercado está colocando em dúvida, a ação de laboratório. Se a valorização vier, o fundo fica rico e continua sem dono. Se não vier, a parte da humanidade encolhe junto com a dos acionistas.
Destaque autoral — leitura recomendada
Uma policial de Savannah, na Geórgia, deu o login dela no Flock ao marido, que é agente do ICE, a polícia de imigração americana. O Flock é a rede de câmeras que leem placas de carro, vendida a delegacias e condomínios em todo o país. A The Verge conta o caso, e ele vale a leitura porque mostra o ponto fraco de quase todo sistema de vigilância privada. O controle de acesso é uma senha. O registro de auditoria anota a conta que entrou, não a pessoa que estava digitando. Se o login passa para o marido, a câmera continua funcionando do mesmo jeito, e a lei que deveria limitar quem pode consultar a base fica sem efeito na mesa da cozinha. (The Verge)
Destaques do dia
Anthropic reserva 5% de si para o bem público — O fundo nasce com ações e com um gatilho de crescimento, mas sem regra que diga quem decide o que financiar. (TechCrunch)
A conta dos data centers chega antes da receita — A Economist escreve que a dívida da indústria de IA preocupa os investidores. A Folha registra que os US$ 10 trilhões prometidos em data centers nos EUA estão atrasados e sob crítica. A The Information fala num neocloud shakeout, a quebradeira das neoclouds, empresas que compram GPU a crédito para alugar capacidade aos laboratórios, e vê risco para a Nvidia, que vende para elas e em alguns casos as financia. O jeito de ler o setor é olhar para o empreiteiro que vende apartamento na planta com dinheiro emprestado. Enquanto a obra anda e os compradores pagam, a conta fecha. Quando a obra atrasa, os juros continuam correndo.
O FT e a The Information relatam que a Microsoft desistiu de um acordo de data center com a Nscale no Reino Unido por causa de atrasos. A saída ainda não está confirmada. Se for verdade, é o primeiro cliente grande a deixar um prédio vazio, e o problema estará no atraso, não na falta de demanda. (The Economist)
Washington defende o Starlink contra a regra europeia — Segundo o FT, os EUA ameaçam empresas europeias por causa de restrições ao Starlink. O atrito gira em torno do EU Space Act, a tentativa europeia de ter regra própria para a órbita. Brendan Carr, presidente da FCC, fala em reciprocidade, que neste caso quer dizer fechar o mercado americano a operadores europeus. Não houve, até aqui, nenhuma ação formal.
Ontem o assunto era quem controla a banda da Ucrânia. Hoje é quem escreve as regras da órbita. A Europa quer soberania sobre um serviço que já usa, e Washington responde com o argumento de sempre, o tamanho do próprio mercado. (FT)
Um login de vigilância trocou de mãos em Savannah — A policial passou a senha do Flock ao marido, agente do ICE. O sistema não reconhece quem está digitando, e a base de placas de uma cidade ficou aberta para outra agência, com outra missão, sem pedido formal nem ordem judicial. Nenhuma regra mudou, só a pessoa sentada diante da tela.
O caso pesa porque o ICE é justamente o órgão que várias cidades tentaram manter longe dessas bases. A barreira estava no contrato e na política municipal. Bastou uma senha para contorná-la. (The Verge)
Flávio promete "Smart Brasil" — Segundo o Metrópoles, Flávio Bolsonaro quer levar ao país inteiro o programa de monitoramento por câmeras usado em São Paulo. A promessa vem na última semana antes do segundo turno. Ela não diz quem guarda as imagens, quem consulta a base, se haverá reconhecimento facial nem quem audita os acessos.
Câmera é promessa fácil porque o eleitor vê o poste instalado. O que ninguém vê é a pergunta de Savannah: quem tem a senha. (Metrópoles)
As vozes
Nem Gary Marcus nem Silvio Meira publicaram texto novo desde a última edição.
Cruzamento Brasil-mundo
Na Geórgia, a senha do Flock passou da policial para o agente do ICE. No Brasil, um candidato promete câmeras em escala nacional. Lá, o sistema já existe e vaza pela cozinha. Aqui, ainda é promessa e já chega sem regra de acesso. Nos dois países, a câmera está no centro da discussão, mas a decisão está em quem pode consultar o que ela grava.
Sinal fraco
A calçada virou jurisdição. A The Verge conta que cidades americanas querem poder imobilizar robotáxis, o equivalente a pôr a trava de roda num carro sem motorista. Na Filadélfia, uma mulher foi presa por bloquear um robô de entrega. Ninguém tinha planejado essa ordem dos acontecimentos. A prefeitura quer uma trava para a máquina, enquanto a polícia já prende quem trava a máquina com o próprio corpo. A disputa pela rua deixou de ser só entre empresa e regulador. O pedestre entrou nela e, por enquanto, é o único a ir para a delegacia.
Para ler depois
- Folha: como formar advogados sem emburrecer com a IA — O ponto fraco da formação jurídica está no começo da carreira. A IA faz o trabalho de júnior que ensinava o júnior a raciocinar.
- Wired: data centers apostam em excursões escolares — A indústria responde à rejeição dos vizinhos com visitas de crianças, não com concessões. Lido ao lado do item 2, mostra um setor que precisa de licença social e de crédito ao mesmo tempo.
Top of mind
Greg Isenberg, 21 observações depois de 48 horas em São Francisco (carrossel da Evolving AI, 18/10). A que fica é esta: corretores de dados faturariam US$ 2 milhões por semana vendendo dados a laboratórios, e o dado de uma empresa pode valer mais que o software dela. Isso explica parte da dívida do item 2. Os laboratórios pagam caro pelo dado e pela energia antes de saber o quanto vão vender.
Insights
Quote do dia
"Where others see a website that's good for wasting time, Germans see a comprehensive surveillance tool that needs muscular oversight." — Careless People, Sarah Wynn-Williams
Os alemães desconfiam de quem junta dados porque se lembram da Stasi. Em Savannah, a base de placas parecia uma ferramenta de trânsito até ir parar na mesa de um agente de imigração.
Conexão do vault
- Arquivo 1: [[Zona Franca de Manaus — Subsídio Sem Dono]] — A ZFM tem beneficiários bem identificados, mas ninguém obrigado a defendê-la em público e a prestar contas. Ela se renova sem debate eleitoral e sem eleitor que tenha sido chamado a decidir.
- Arquivo 2: [[dahl]] — Das oito garantias da poliarquia, a última é a que fecha o circuito: instituições que façam a política pública depender do voto e da preferência expressa dos cidadãos. Dahl acrescentou, no fim da carreira, que o capitalismo distribui recursos políticos de forma desigual.
- A conexão: A Zona Franca é dinheiro público sem dono que responda por ele. O fundo da Anthropic é o inverso: dinheiro privado destinado ao público, com dono mas sem público que decida. Pelo critério de Dahl, os dois falham no mesmo ponto: nenhum dos dois faz o gasto depender de quem paga ou de quem recebe. A diferença é que, em Manaus, ao menos houve votação no Congresso.