Manchete do dia
Em março, o Google disse que não havia anúncios para quem conectasse seus apps ao AI Mode. A frase completa foi esta: "isso não vai mudar por enquanto". O "por enquanto" durou sete meses. Em 16 de outubro, a empresa confirmou ao Search Engine Land que começou a testar anúncios no AI Mode para usuários que ligam Gmail, Agenda e Fotos pelo Personal Intelligence. A página de ajuda, lida por sites especializados, diz que resumos, trechos e inferências tirados desses apps "podem ser usados para mostrar anúncios". O Google afirma que os anúncios não se baseiam "diretamente" na caixa de entrada nem na biblioteca de fotos. Por ora, tudo isso chega por fontes secundárias. Não houve comunicado próprio da empresa.
O peso do caso está no advérbio. Pense num porteiro que nunca entrega sua correspondência ao vendedor da esquina. Só comenta que o morador do 302 anda recebendo muito envelope de companhia aérea. O vendedor não leu carta nenhuma e sabe que você vai viajar. "Não diretamente" quer dizer isto: o anúncio não é alimentado pelo email, e sim pelo que o modelo concluiu a partir dele. A inferência é o produto. O Google tem defesa, e ela merece ser dita por inteiro. O usuário escolhe conectar os apps e pode desligá-los. O anunciante não vê nada. Raça, religião, orientação sexual e saúde ficam fora da segmentação. E é um teste. Tudo isso é verdade, e tudo isso trata de quem vê os dados. Nada trata do que os dados decidem. Há ainda um detalhe miúdo: desconectar o app não apaga o que já foi para o histórico de pesquisa. Esse histórico se limpa à parte, em outra página.
O tema vence os outros hoje porque responde à pergunta que o setor inteiro evita: quem paga a inferência do assistente pessoal? O anúncio de busca clássico lia o que você perguntava. Este lê o que a máquina entendeu sobre a sua vida, a partir da correspondência e dos álbuns de família. É o modelo de negócio de 2004 descendo uma camada, da intenção declarada para a intimidade inferida. O assistente que se vendia como mordomo vai passando, aos poucos, a trabalhar também para outro patrão.
Promessa com "por enquanto" não chega a ser promessa. É prazo de validade.
Destaque autoral — leitura recomendada
Gary Marcus publicou neste domingo "Will Generative AI do more harm than good?", em que pergunta se os danos da IA generativa podem superar os benefícios. Só o título e o resumo foram lidos, e a tese ainda pede o texto inteiro para ser julgada. Vale a leitura pelo momento em que chega. Na mesma semana, Marcus escreveu sobre a CoreWeave e sobre bancos americanos atingidos por agentes de IA. Agora junta os casos numa conta de saldo. É o cético de plantão do Vale mudando de escala: do erro do modelo para o balanço da tecnologia. Convém ler com o lápis na mão, porque Marcus acerta mais nos diagnósticos do que nos prazos. garymarcus.substack.com
Destaques do dia
Google admite testar anúncios em AI Mode com dados de Gmail e Fotos — Sete meses depois de dizer que não haveria anúncios para quem conectasse os apps, o Google põe as inferências tiradas do seu email na mesa do leilão. Relevant Audience / Search Engine Land
Folha: Meta desbanca Musk como vilã da tecnologia para Lula — A Folha Tec publicou que, na campanha de Lula, a Meta tomou de Elon Musk o lugar de adversária tecnológica do segundo turno. O texto não foi lido, só o título. Mesmo assim, o título basta como eco do Google. O vilão escolhido deixou de ser o bilionário que fala demais e passou a ser a empresa que ordena o feed em silêncio. Musk briga em público. A Meta decide o alcance, e quem está fora não vê como.
É a mesma pergunta da manchete, agora em ano eleitoral. Na Califórnia, o Google decide que anúncio aparece a partir do que inferiu sobre você. Aqui, uma plataforma decide quanto de um candidato chega ao eleitor. Nos dois casos, quem tem a régua é a única que enxerga a escala. Folha Tec
FMI e OCDE avisam que ganhos de IA podem se concentrar em ricos — O FMI estima que a IA pode somar até 0,5 ponto ao crescimento global por ano. Diz também que o ganho medido até agora fica bem abaixo disso. A OCDE calcula entre 0,4% e 1,2% de efeito na produtividade dos países-membros. Os dois organismos chegam ao mesmo alerta: o ganho tende a ficar com países ricos e grandes empresas. O FMI vê o risco maior para quem está começando a carreira.
O achado está num detalhe da OCDE: as empresas usam IA menos que os consumidores. A intuição diz que a produtividade chega pela folha de pagamento. Os dados mostram outra coisa. O funcionário usa o chatbot no celular, por conta própria, e o ganho fica com ele, fora da conta da firma e das estatísticas nacionais. Esse ganho escondido não aparece no PIB. A ameaça ao estagiário aparece no organograma. Meio, via Reuters
Falha no PHP tira do ar acesso externo ao SEI na Anatel e em tribunais — Segundo o Meio, com base no g1, a Anatel e tribunais federais suspenderam por precaução o acesso externo ao SEI. O SEI é o sistema em que tramita boa parte dos processos administrativos do governo federal. O motivo são duas falhas graves no PHP que dão controle do servidor a quem não tem senha. A correção existe, e o governo mandou atualizar.
A falha em si já tinha aparecido aqui na quinta como problema global. O fato novo é onde ela bateu. O conserto está pronto e o processo continua parado, porque o remédio só funciona depois de aplicado servidor a servidor. Até lá, a precaução tranca a porta para todos, inclusive para o advogado que só queria protocolar uma petição. Meio
Países seguem divididos entre blocos de IA dos EUA e da China — Uma matéria deste domingo volta à escolha que Washington quer impor. De um lado está a Pax Silica, o bloco americano. Do outro, a Organização Mundial de Cooperação em IA, a resposta chinesa. A origem é uma minuta do Departamento de Estado, noticiada pela Reuters em agosto, que ameaça excluir quem participar dos dois. Hoje só o título foi visto, e não há fato novo identificado.
O dado que já se conhece diz muito: o Cazaquistão é o único membro conhecido dos dois blocos. A diplomacia de ficar com os dois lados, que países médios praticaram por décadas, vira infração quando o assunto é chip e modelo. Para o Brasil, que vende soja a Pequim e compra GPU de empresas americanas, a pergunta ainda não foi feita oficialmente. Quando vier, não terá a opção "as duas". Business Today
As vozes
- Gary Marcus: em "Will Generative AI do more harm than good?", põe na balança os danos e os benefícios da IA generativa. A tese do texto completo ainda não foi lida. Interessa porque o Pedro lê Marcus com ceticismo parcial, e o texto passa do defeito técnico para o saldo social, terreno onde o argumento dele é mais fraco e mais interessante.
- Folha Tec: "A surpreendente popularidade da IA" trata da adoção pelo público. O autor não foi identificado, e só o título foi visto. Conversa com a OCDE: se o consumidor adota mais rápido que a empresa, a surpresa não está na popularidade. Está no lugar onde o ganho se perde.
Cruzamento Brasil-mundo
Google e Meta, dois continentes, um mecanismo. Nos Estados Unidos, o Google admite usar inferências sobre dados pessoais para escolher anúncios. No Brasil, a Meta foi cobrada pelo TSE nesta semana sobre o alcance de Lula. Nos dois casos, a empresa decide o que o usuário vê, e só ela enxerga como.
O segundo par é mais especulativo. O TechCrunch relata um teste em que modelos obrigados a escolher partido divergem: o Grok fica com os republicanos, o da OpenAI com os democratas. Só o título foi visto, sem a metodologia. Aqui, a campanha de Lula alegou que o Meta AI recusou gerar imagens do candidato. A pergunta é a mesma nos dois países: a inclinação do modelo foi projetada ou é acidente? Para o eleitor, a diferença é pequena.
Sinal fraco
A IA acelera o ataque, não o conserto. A Wired publicou que o colapso do PHP mostra como a IA torna as falhas mais fáceis de explorar. Marcus escreveu na quinta sobre bancos americanos atingidos por agentes. O SEI brasileiro saiu do ar por precaução. O que distingue o caso de uma simples lista de incidentes é a assimetria. A máquina encurta o tempo entre a descoberta da falha e o ataque. Aplicar a correção continua sendo trabalho humano, servidor por servidor, na velocidade do órgão mais lento. A conta cai sobre quem atualiza devagar, e o Estado atualiza devagar.
Para ler depois
- The Economist: modelos de IA podem ser menos opacos do que se pensava — Sobre os avanços em interpretabilidade, a leitura do que acontece dentro do modelo. Se a técnica funciona, enfraquece o argumento de que o fiscal externo não consegue auditar o que não vê. economist.com
- Wired: "The PHP Meltdown Shows How AI Makes Bugs More Exploitable" — O mecanismo por trás do sinal fraco de hoje, contado por quem cobriu a falha desde o início. wired.com
Insights
Quote do dia
"We used to merely consume content. Now the content consumes us too—our behaviors, our rituals, and our identities." — Hit Makers, Derek Thompson
Thompson escrevia sobre a música no streaming, que passou a ouvir quem ouve. O AI Mode com anúncios dá o passo seguinte: o assistente lê a vida inteira do usuário, resume e oferece o resumo ao leilão.
Conexão do vault
- Arquivo 1: [[byungchulhan]]: para Han, a transparência troca a confiança pelo controle. Quem se expõe colabora com a vigilância por vontade própria, porque a vigilância chega como comunicação, não como proibição.
- Arquivo 2: [[A Plataforma Se Chamava Rousseau — Decisão Sem Autoria]]: Casaleggio pregava acabar com todo intermediário e, no mesmo movimento, construiu uma associação privada dona da plataforma, do cadastro e das perguntas. O filiado votava entre opções definidas em outro lugar.
- A conexão: O assistente pessoal de IA se vende como o fim do intermediário: em vez de dez links azuis, uma resposta. É a promessa de Casaleggio aplicada à busca, e ela termina do mesmo jeito, com outro intermediário mais fechado no lugar do antigo. O usuário fica transparente para a máquina, como em Han, e a máquina continua opaca para ele. Ele recebe a resposta, mas não vê de onde ela vem.