Radar · Tec

26.10.26

Segunda-feira Edição nº 205

Lula quer o dado em casa

Reeleito, promete regra para redes, IA própria e data center que guarde no país o que o brasileiro produz.

§ 01

Manchete do dia

Lula fez três promessas para a tecnologia depois de vencer o segundo turno, segundo a Agência Brasil, a Band e o Olhar Digital. Vai regular as redes sociais. Vai desenvolver uma "Inteligência Artificial Brasileira". E vai exigir que as empresas de data center deixem no país os dados que processam aqui. Nenhuma das três é nova. Em 5 de setembro, num comício em São José do Rio Preto, ele já tinha dito que não queria depender nem da China nem dos Estados Unidos, e que "quem vier produzir aqui data center vai ter que produzir sua própria energia". A diferença é o lugar de onde fala agora: deixou de ser candidato e voltou a ser governo, com quatro anos pela frente. Os bolsonaristas contestam o resultado, segundo a Folha. A contestação também corre no feed.

Das três, a do dado é a que pede explicação, porque parece mais simples do que é. A intuição diz que dado guardado em solo brasileiro é dado sob lei brasileira. Pense num cofre alugado numa agência de banco estrangeiro no centro do Rio. O cofre está na Rua da Assembleia, mas a chave mestra fica com a matriz, e a matriz responde ao juiz de lá. O CLOUD Act americano, de 2018, funciona assim: autoriza o governo dos Estados Unidos a exigir de uma empresa americana os dados que ela guarda em qualquer país. O endereço do servidor muda menos do que parece. O que decide é quem opera a máquina.

A defesa da promessa merece ser dita inteira. Servidor no país põe a empresa ao alcance do STF, do TSE e da ANPD com um pedido local, sem carta rogatória. Atrai obra, emprego e conta de luz paga em reais. E dá ao governo o que ele nunca teve nas brigas com a Meta durante a campanha: algo físico para fiscalizar. Tudo isso é verdade. Nada disso transforma o servidor em soberania. Para chegar lá, a "IA Brasileira" teria de rodar em máquina operada por alguém que não responda a Washington nem a Pequim, e essa empresa ainda não existe.

O tema vence os outros hoje porque é o primeiro compromisso de tecnologia de um governo recém-eleito e porque vem com prazo: a escolha entre os blocos americano e chinês de IA já está sobre a mesa de países médios. O Brasil prometeu o cofre. Falta saber quem fica com a chave.

§ 02

Destaque autoral — leitura recomendada

Gary Marcus publicou na sexta, 24, "Will Generative AI do more harm than good?", e o texto inteiro confirma o que o título só sugeria. Ele monta um livro-caixa. De um lado, deepfakes pornográficos, phishing e desinformação em escala, vigilância, roubo de propriedade intelectual, o que chama de "cognitive surrender" (o hábito de entregar o raciocínio à máquina) e a onda de ataques hackers deste mês. Do outro, pouca coisa: programação, segundo amigos programadores, e um ganho econômico que não aparece, citando Torsten Slok, da Apollo. A conclusão dele: "it's not hard to make the argument that it has on the whole been a net detriment to society". Vale ler por dois motivos. Marcus faz a conta que o Vale se recusa a fazer. E admite que o dano ao emprego foi menor do que ele próprio temia, uma concessão rara no gênero. O ponto fraco também está à vista: a coluna dos benefícios tem uma linha só porque ele não a preencheu. garymarcus.substack.com

§ 03

Destaques do dia

5 itens
  1. Lula reeleito promete regular redes e criar IA brasileira — O presidente quer dado de data center guardado no país; resta saber quem fica com a chave do servidor. Olhar Digital

  2. Economist: China depende cada vez mais de copiar a IA americana — A Economist publicou que a IA chinesa depende cada vez mais de copiar modelos americanos. O texto integral não foi lido. O contexto é conhecido: NSA, CISA e FBI já acusaram seis empresas chinesas de destilação em escala industrial, e Pequim nega. Destilar é treinar um modelo menor com as respostas de um maior, como o aluno que decora as soluções do professor em vez de aprender a matéria. Sai mais barato e chega perto do original.

    O detalhe que muda o jogo está no que passa a ser protegido. Por anos, Washington controlou o chip, um objeto que atravessa a alfândega. A saída de um modelo atravessa a rede, uma pergunta por vez. Para o Brasil, que acabou de prometer IA própria, a questão fica concreta: treinar em cima de quem? Com base americana, entra no clube e aceita as regras do clube. Com base chinesa, herda a acusação. The Economist

  3. Data centers atrasados pagam multas de US$ 5 mi por dia — A The Information publicou que multas por atraso em obras de data center chegam a US$ 5 milhões ou mais por dia, e que já nasceu um seguro só para esse risco. Quando surge uma apólice, o risco deixou de ser hipótese e virou planilha de seguradora. O gargalo da IA saiu do laboratório e foi parar na subestação de energia e na licença de obra. A Wired, na mesma semana, escreveu que o movimento americano contra data centers pode aprender com quem já resistiu a eles no exterior.

    É a outra face da manchete. Nos Estados Unidos, o data center virou briga de vizinhança, com conta de luz, água e barulho. No Brasil, Lula o trata como questão de soberania e já avisou que quem vier terá de trazer a própria energia. O mesmo prédio, cheio de servidores, vira ameaça num lugar e promessa no outro. The Information

  4. Apollo: IA dá "retorno financeiro zero" à maioria das empresas — Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, disse, segundo o TechCrunch, que a IA não entrega retorno financeiro à maioria das empresas. Folha e Bloomberg registram o temor de que o gasto em IA ofusque os bons resultados das gigantes nesta temporada de balanços. Outra reportagem da Folha mostra executivos otimistas e funcionários com medo de serem substituídos.

    A Apollo dá o número e também empresta o dinheiro: o FT noticiou que ela lidera o pacote de US$ 40 bilhões em dívida que a SpaceX fechou para comprar chips. O mesmo banco que diz que a conta não fecha para o cliente financia quem vende a conta. Não há contradição nisso. É o ofício do credor: cobrar juros de quem aposta, qualquer que seja o resultado da aposta. TechCrunch

  5. Google ainda reorganiza o jornalismo online com seu buscador de IA — A Verge publicou que as mudanças de busca com IA do Google reviraram o mercado de publicação online. O texto não foi lido. O contexto é a queda de tráfego que editores vêm medindo desde que o resumo gerado passou a responder no lugar do link.

    O mecanismo é velho e só mudou de escala. O buscador era um índice que mandava o leitor para outro lugar. Virou a resposta, e o leitor não sai mais de lá. Quem produziu a informação paga a apuração e perde a visita. No domingo, o Radar tratou do teste de anúncios no AI Mode. Aqui está o outro lado do mesmo balcão: o Google fica com a resposta, com o leitor e, agora, com o anúncio. The Verge

§ 04

As vozes

2 itens
  • Gary Marcus: a IA generativa já é, no saldo, prejuízo para a sociedade — deepfakes, phishing, vigilância e roubo de propriedade intelectual de um lado, quase nada do outro. Interessa ao Pedro pela honestidade parcial: Marcus concede que o emprego resistiu melhor do que ele previa, mas deixa a coluna dos benefícios em branco. Ceticismo útil, livro-caixa incompleto.
  • TechCrunch sobre "Cyberselfish": a matéria trata da volta ao mercado do livro de Paulina Borsook, de 2000, que mirava o tecnolibertarianismo do Vale quando ele ainda parecia excentricidade de engenheiro. A matéria não foi lida. Interessa porque o livro descreveu, há 26 anos, a ideologia que a A16Z hoje publica em manifesto, e voltar a ele depois de uma eleição disputada dentro de plataformas é ler a origem do problema.
§ 05

Cruzamento Brasil-mundo

Dois pares, uma pergunta. Washington trata o modelo copiado como infração, e Lula promete IA brasileira. Ninguém em Brasília disse ainda sobre que base essa IA será treinada, e é aí que a promessa encontra a geopolítica: quem escolhe a base escolhe o bloco.

O segundo par é o próprio data center. Nos Estados Unidos, ele virou alvo de vizinhos, multa e seguradora. No Brasil, virou condição de soberania, com o dado obrigado a ficar no país. O prédio é o mesmo. Muda quem paga a luz e quem guarda a chave.

§ 06

Sinal fraco

A conta da IA começou a ser cobrada por gente que não acredita em promessa. Seguradoras precificam atraso de data center a US$ 5 milhões por dia. Bancos emprestam US$ 40 bilhões à SpaceX contra chips, em dívida de grau de investimento, e não em caixa próprio. E o economista do maior desses credores diz que a maioria das empresas não viu retorno. O que distingue esses três fatos de uma lista de manchetes é quem fala. Até aqui, o otimismo da IA vinha de quem vende IA. Agora o preço é posto por quem só ganha se calcular o risco direito: atuário, credor, economista de banco. Eles não estão pessimistas. Estão cobrando.

§ 07

Para ler depois

2 itens
  • Wired: o movimento contra data centers nos EUA pode aprender com o exterior — Como comunidades fora dos Estados Unidos resistiram a obras de data center, num momento em que o Brasil promete atraí-las. wired.com
  • Live Science / Nature: a IA mexe na motivação antes de mexer no emprego — Um estudo diz que dez minutos de assistência de IA bastam para reduzir a motivação; outro, na Nature, liga a consciência de IA entre universitários à insegurança sobre o emprego futuro. Metodologia não lida, mas a hipótese merece o tempo. livescience.com
§ 08

Top of mind

3 itens
  • BBC News Brasil, Edison Veiga — as batalhas da polarização: "Tropa do Flávio" e "Exército do Lula" entram para a lista de nomes que a história guarda das divisões brasileiras. O texto chegou como material para o curta Prudente, sobre o atentado de 1897. Fecha o ciclo de domingo: a eleição acabou, a contestação não.
  • Pivot, com Kara Swisher, Scott Galloway e Sacha Baron Cohen: a rede social como a maior máquina de propaganda da história, a IA como filho monstruoso dela, e a tese de que democracia e rede social não convivem. Exagero de humorista, mas cai na semana em que um presidente brasileiro promete regular as redes depois de vencer dentro delas.
  • Johnathan Bi, sobre por que outsiders inovam: as culturas tech e queer partilham o gosto pelo contrário e pela transgressão, daí os polos de São Francisco e Berlim. Hipótese para guardar.
§ 09

Insights

3 itens

Quote do dia

"Production, in other words, was forcibly bundled with consumption." — The Great Convergence, Richard Baldwin

Baldwin descreve o mundo antes do navio a vapor, em que se produzia onde se consumia porque mover a mercadoria custava caro demais. A globalização foi desatar esse nó. A promessa de Lula refaz o nó por lei: o dado gerado aqui teria de ser processado aqui, não porque mover custe caro, mas porque o governo quer que custe.

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[Careless People]] — Sarah Wynn-Williams conta que a Alemanha foi um dos primeiros países a investigar o Facebook. Quem viveu sob a Stasi e a Gestapo desconfia de quem quer juntar muita informação pessoal, e por isso, escreve ela, os alemães "enxergam além da curva".
  • Arquivo 2: [[Whole Earth]] — John Markoff mostra Stewart Brand trocando a política tradicional pelo "poder direto": ferramentas para o indivíduo, rede sem centro fixo. Taplin, citado no livro, vê esse utopismo sequestrado por uma geração posterior de capitalistas da internet.
  • A conexão: O Vale nasceu da ideia de Brand de que a ferramenta substitui o Estado. Os países que regulam primeiro são os que lembram o que acontece quando alguém concentra informação, e essa memória não vem de engenheiro, vem de história. O Brasil teve o SNI. A promessa de Lula aposta na memória alemã, mas com instrumento de Brand: em vez de lei sobre o que a máquina faz, um prédio onde a máquina fica.