A leitura do dia
Timothy Garton Ash escreveu nesta semana uma homenagem. Ramez Naam fez uma aposta com prazo: o progresso da Anthropic não vai acelerar de forma sustentada até o primeiro semestre de 2027. Uma homenagem não se cobra, e essa aposta pode ser cobrada.
O texto saiu no Noahpinion, com introdução de Noah Smith, mas a tese é de Naam. Noah publica o artigo e não chega a concordar com ele. Chama Naam de "one of the best futurists alive", reconhece que ele é mais cético do que esperava, sobretudo diante das alegações da Anthropic, e não vai além de "very intellectually interesting".
A explosão de inteligência depende do auto-aperfeiçoamento recursivo, em que a máquina melhora a máquina, que por sua vez melhora a máquina. O caminho mais citado para chegar lá é pôr milhões de agentes para trabalhar em paralelo. Naam mediu esse caminho e concluiu que ele compra velocidade, mas não inteligência. No SEC-Bench Pro, o GPT-5.6 marca 71,2 com um agente, 74,3 com quatro e 76,4 com dezesseis. Em prova formal no Lean, o primeiro salto de dez vezes no número de agentes do Opus 5.5 rende 27 pontos, e o segundo, de 10 para 100 agentes, rende 2. Dez Opus 5.5 superam cem Opus 5 ou cem Fable 5.1. Sobre o resultado em Navier–Stokes, Noam Brown, da OpenAI, disse que não daria nem 10% do crédito ao trabalho multiagente e que o mérito é do modelo mais inteligente.
O argumento cabe numa imagem do próprio Naam: "a thousand copies don't automatically supply the insight one copy is missing." A ressalva de Noah é a objeção mais forte: os modelos continuam melhorando depressa, e talvez nada disso importe. Mas Naam não diz que o progresso para. Diz que o ganho vem de um modelo melhor, e não de uma multidão de cópias do mesmo modelo. O ritmo, portanto, continua preso ao ciclo de treino, e não decola sozinho. Ele propõe medir três parâmetros (G, λ e N) a cada geração de modelo. O teste natural é o relatório de emprego da própria Anthropic, que fala em agentes com 9 a 19 horas de runtime para cada hora humana. Se essas horas não virarem aceleração até meados de 2027, a tese da decolagem perde o melhor dado que tinha.
Relevância para Pedro: No livro Ideologia no Vale, a crença de que escala vira transcendência sempre apanhou de céticos de carteirinha. Agora apanha de um futurista, com números, e isso dá ao livro um contraditor que vem de dentro da tribo. Na coluna do Globo, o prazo de 2027 vira uma aposta que dá para registrar agora e cobrar depois, contra o discurso de aceleração das próprias empresas.
🔗 Can a Million AI Agents Create Superintelligence? — Ramez Naam, no Noahpinion
Textos lidos na íntegra
Timothy Garton Ash
A very personal tribute to a great Polish dissident — History of the Present (Substack)
Em 1981, numa greve do Solidariedade em Rzeszów, Garton Ash viu em Adam Michnik o "crystal spirit" de Orwell. Quarenta e cinco anos depois, nos 80 anos do amigo, escreveu este texto para um livro-homenagem. Ele saiu primeiro em polonês, na Gazeta Wyborcza. O texto passa pela primeira edição desse jornal, em 1989, por uma viagem de trem a Bytom e pela noite da unificação alemã, em Frankfurt. Ali Michnik cochichou, em três quartos de brincadeira, um verso do hino patriótico Rota: "Nenhum alemão vai cuspir na nossa cara". Os dois divergiam sobre como uma democracia nova deve tratar o próprio passado. Garton Ash defendia o modo alemão, que abre os arquivos e julga os culpados. Michnik defendia o modo espanhol, que vira a página. Garton Ash não esconde a discordância e a resume numa frase: "He certainly isn't always right, but he's always interesting." O texto fecha pela virtude que ele põe acima das outras: "Three qualities distinguish Adam: electrifying energy, verbal brilliance, courage. And the greatest of the three is courage."
Relevância para Pedro: O debate entre o modo alemão e o modo espanhol é a pergunta do capítulo do livro da Nova República sobre a Lei da Anistia, porque o Brasil escolheu o modo espanhol. Michnik passou anos preso pelo regime que perdoava, e isso faz dele o defensor menos suspeito dessa escolha. O capítulo ganha um argumento que não vem de quem se beneficiou do perdão.
🔗 A very personal tribute to a great Polish dissident — History of the Present
Cruzamento — do radar ao vault
Ramez Naam — Can a Million AI Agents Create Superintelligence? × [[Serendipidade como Método]] Tipo (Boden): exploratória
A curva de Naam, em que o segundo salto de dez vezes rende 2 pontos, é a medida empírica da condição de Luhmann, a de que só há comunicação produtiva entre parceiros capazes de surpreender um ao outro: cópias do mesmo modelo não se surpreendem, e por isso a multidão de agentes compra velocidade, mas não o cruzamento que produz o insight.
O mapeamento vale termo a termo. Os N agentes de Naam são o fichário pequeno de Luhmann, um container e não um parceiro, porque não têm complexidade própria em relação aos outros. A "insight one copy is missing" é o M2 de Koestler, que nenhuma quantidade de M1 repetido fornece. O "modelo mais inteligente" de Noam Brown é o espírito preparado de Pasteur, que o número de cópias não substitui. Lida ao lado de Naam, a divisão de trabalho que o ensaio propõe, com a máquina gerando acaso em escala, ganha um limite: a escala só gera acaso quando junta matrizes diferentes, e cópias de uma matriz só fazem a mesma combinação mais depressa. A forma comum é a da rede homogênea, em que um nó a mais não traz nada que o primeiro nó já não tivesse. É o oposto dos cafés de Johnson, onde perfis diferentes se encontram, e isso tira a aposta de 2027 do campo da quantidade de agentes e a leva para o da diversidade entre eles.
Ponte com o Brasil
Garton Ash e Michnik discordavam sobre a mesma escolha que o Brasil fez em 1979. A Anistia costuma ser lida como acomodação, um acordo imposto por quem tinha a força. O caso de Michnik mostra que, para quem saiu da prisão política, o modo espanhol podia ser convicção. A diferença pesa no julgamento da escolha brasileira.
Top of mind
- Michel Alcoforado (reel de 18/10). Ele lança uma mini-temporada do podcast É tudo culpa da cultura sobre a extrema direita, com Isabela Kalil, Jacqueline Moraes Teixeira, Lívia Reis e Rosana Pinheiro-Machado. O primeiro episódio sai hoje. A categoria "tempo da política", de Palmeira e Heredia, ajuda a explicar o fenômeno: para a extrema direita, a eleição não termina na urna e vira identidade. Isso serve ao PdP de quarta (21/10), sobre o pós-segundo turno, e conversa com a leitura de Noah sobre a Nova Direita (radar de 18/10).
- Evolving AI, com Greg Isenberg (carrossel de 18/10). "Agents could soon learn your job just by watching you." O carrossel promete que o agente substitui a pessoa. Naam mostrou hoje que mil agentes não suprem o insight que falta a um só.