Radar · Voices

24.10.26

Sábado Edição nº 203

Musk e a guerra delegada

📡 RADAR VOICES — 2026-10-24

§ 01

A leitura do dia

Andrew Sullivan mudou de ideia sobre Elon Musk. Quem muda de posição diz mais do que quem confirma a sua: Michael McFaul escreve hoje a tese que defende há anos, e Matt Yglesias discute as midterms olhando para Romney e Obama. Sullivan escreve sobre o presente, US$ 366 milhões doados a poucos dias da eleição. Jerry Kaplan descreve uma corrida técnica. Sullivan mostra a mesma tecnologia, Starlink e X, virando poder político e militar sem mandato.

Durante anos, Sullivan tratou Musk como um barão ladrão clássico, um imigrante com energia e nervo de sobra, do tipo que a América produz e tolera. O subtítulo do texto desmancha esse retrato: "Builders gonna build. But sociopaths gonna sociopath." Depois vem a lista. Musk é o maior doador das midterms, com US$ 366 milhões para os republicanos, a maior doação individual da história americana. O X virou um caldeirão de ansiedade racial e violência. O DOGE economizou quase nada, e a desordem que causou no PEPFAR matou milhares de crianças pobres. Musk carrega esse peso, escreveu Sullivan, "like all sociopaths. He feels it not at all." O caso mais grave é a Starlink na Ucrânia. Musk teria limitado o serviço depois de consultar Trump, e não Zelensky. Trump diz que tudo voltou ao normal; os ucranianos dizem que o gargalo continua. Para Sullivan, "delegating military strategy to a private individual is a new low for our increasingly banana republic." O conservador que aceitava Musk como um empreendedor exagerado agora o vê como ameaça. A palavra que muda o diagnóstico é "delegating". O problema que Sullivan descreve está menos no homem do que em quem lhe passou a decisão.

Relevância para Pedro: Para o Ideologia no Vale, o subtítulo vira o mito do builder do avesso: o bordão que celebra quem constrói descreve também quem não sente o custo do que quebra. É o caso-limite que o livro procura, o momento em que a ideologia do Vale deixa de ser cultura de empresa e passa a ser poder de Estado sem eleição.

🔗 My Musk Problem And Ours — The Weekly Dish


§ 02

Textos lidos na íntegra

Michael McFaul

Trump's Capitulation to Putin Is Undermining U.S. National Security — McFaul's World (publicado antes no The Dispatch)

Dois dias antes de entrarem em vigor, as sanções e tarifas da Lei Graham foram suspensas por ordem executiva. McFaul põe essa concessão numa lista: o fim da ajuda direta a Kyiv, o veto à entrada da Ucrânia na Otan, o alívio das sanções ao diesel russo e a Starlink restrita, com efeito sobre a defesa aérea ucraniana. Sem McMaster e Mattis para segurá-lo, Trump transformou a admiração por Putin em "the most radical shift in American foreign policy in the last century—and maybe ever." Putin já propõe uma reunião entre Rússia, China e Estados Unidos sobre a "crise ucraniana", como faziam as potências imperiais dos séculos 18 e 19. McFaul separa duas falhas que costumam vir misturadas. Há a falha moral, e ele a assume: "Call me old-fashioned or idealistic, but I still believe that morality should play a role in American foreign policy." E há a falha pragmática, que dispensa idealismo: Putin não larga China, Irã e Coreia do Norte, e Xi lê o recuo americano pensando em Taiwan. A aposta que lhe resta é um Congresso novo, com Trump já em fim de mandato, votando ajuda militar e proibindo negócios com empresas russas. Contra isso pesa "the same old playbook—appease Putin and then hope he will kindly end his invasion."

Relevância para Pedro: Para a edição do Meio sobre as midterms, McFaul transforma novembro num voto de política externa, com o Congresso novo como o último freio institucional. O Pew (84% dos americanos com pouca ou nenhuma confiança em Putin) e o YouGov (4% simpatizam com a Rússia) dão à edição o dado que falta: nesse ponto, o eleitorado não acompanha Trump.

🔗 Trump's Capitulation to Putin Is Undermining U.S. National Security


Matt Yglesias

Obama's forgotten late-term moves — Slow Boring

Quem rompeu com a reforma imigratória abrangente de Bush e McCain foi Mitt Romney, e não Donald Trump. Yglesias mede as distâncias. Em imigração, Trump fica perto de Romney, bem mais perto do que Romney ficava de McCain. Em Previdência, Medicare e casamento igualitário, a distância entre Romney e Trump é muito maior. Daí sai a inversão do texto: "most Democrats see Trump's success as a counterexample to the idea that moderation has political benefits while I see Trump as an illustration of the principle." Trump foi ao centro em Previdência e Medicare para neutralizar os ataques que Obama fez a Romney, e ganhou apesar dos escândalos. Com essas mesmas posições, escreve Yglesias, Romney "or some other honorable and decent person" teria vencido. A lista do que ele chama de "late-Obamaism", as três frentes que teriam enfraquecido Hillary, fica atrás do paywall.

Relevância para Pedro: Para a coluna do Globo da semana depois do 2º turno, o argumento serve de régua: mostra qual dos dois candidatos colheu voto ao centro. O tracking IPESPE/Abrapel e as ondas Meio/Ideia dão a prova.

🔗 Obama's forgotten late-term moves


Jerry Kaplan (na Persuasion)

What the PHP Bug Shows Us About Humanity and Machines — Persuasion

Uma falha de mais de dez anos no PHP, o software que sustenta cerca de 70% dos sites, parecia capaz apenas de travar o sistema. A Wiz e a Calif, usando IA avançada, descobriram cada uma por conta própria que ela permite tomar a máquina. Humanos levariam meses para chegar lá, se chegassem. A Cloudflare detectou milhões de tentativas de exploração, e o Reino Unido tirou 32 serviços públicos do ar por precaução. Kaplan resume uma distinção numa frase: o chat e o buscador, "both types of systems look but don't touch." A IA agêntica, como o Muse da Meta, age em nome do usuário. Ela mexe. A vantagem da máquina vem da velocidade e da minúcia, e não de alguma inteligência superior, como já acontecia com Deep Blue e AlphaGo: "Not because it's 'smart' (though that's certainly a reasonable description), but because modern AI allows us to exploit the same advantages that computers have always provided in new ways: their speed, meticulousness, and diligence." As ferramentas que atacam também defendem, e o estoque de bugs tem fim. O que fica é "a far-reaching race between good actors and bad where every second counts."

Relevância para Pedro: Para a coluna do Globo sobre IA agêntica, o caso PHP mostra na prática a diferença entre a IA que conversa e a IA que mexe no mundo, com o "look but don't touch" como fio da coluna. No Ideologia no Vale, Kaplan ajuda a desmontar o "mais inteligente que nós": a máquina venceu por ser mais rápida e mais minuciosa.

🔗 What the PHP Bug Shows Us About Humanity and Machines


§ 03

Publicados mas sem acesso

3 itens
  • Niall Ferguson — Is There Method to Trump's Foreign Policy Madness? (The Free Press)
  • Martin Wolf — Martin Wolf on the US midterms: What's at stake for the world? (FT, vídeo)
  • Andrew Sullivan — Christopher Caldwell On The Rising Right In Europe (Dishcast, podcast)

§ 04

Conexões entre as vozes

Sullivan + McFaul. Os dois chegam à Starlink na Ucrânia por lados opostos. Sullivan acusa o particular que decide, McFaul acusa o Estado que capitula. Cada um, sozinho, conta metade da história. Lidos juntos, mostram que a "banana republic" de Sullivan não está no bilionário poderoso. Está num governo que entrega a um particular uma decisão de guerra e chama isso de política externa.

§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

Andrew Sullivan — My Musk Problem And Ours × [[A Plataforma Se Chamava Rousseau — Decisão Sem Autoria]] Tipo (Boden): combinatória

Lida ao lado da plataforma Rousseau, a Starlink na Ucrânia mostra que o "delegating" de Sullivan não começa num ato de delegação: quando a infraestrutura de uma função soberana pertence a um particular, a decisão já mora com o dono, e o único freio que o caso italiano documenta, o Estado ordenando a devolução, é exatamente o que em Washington cedeu primeiro.

O mapeamento é de peça por peça. Em Roma, a base do M5S era o soberano formal, mas a associação privada dos Casaleggio possuía a plataforma e o cadastro, e a direção redigia a pergunta; a base só ratificava. Na Ucrânia, Zelensky é o soberano formal, mas a constelação é de Musk, e quem foi consultado foi Trump. Nos dois casos a decisão passa ao dono da infraestrutura e ao chefe político aliado a ele, e o titular nominal fica com o efeito. A diferença é o desfecho: em 2021 o Garante italiano obrigou a associação a entregar o cadastro em cinco dias; na Starlink, o Estado que teria esse papel é o que consultou o dono. É o "code is law" de Lessig, que o ensaio usa contra Casaleggio, levado da urna para a defesa aérea.

§ 06

Ponte com o Brasil

O Brasil já viveu essa situação. Em 2024, Musk enfrentou o STF, e na Amazônia a Starlink virou infraestrutura, inclusive do garimpo. A pergunta de Sullivan, sobre quem decide o que a constelação faz em território soberano, chega ao Brasil na véspera do 2º turno.

§ 07

Top of mind

2 itens
  • Johnathan Bi, "Why Outsiders are Innovators" (Reel de 23/10). Para Bi, a transgressão move a inovação: "technology is a rebellion against nature." O Sullivan de hoje mostra a transgressão sem freio, "sociopaths gonna sociopath." Os dois formam o par de tese e antítese para um capítulo do Ideologia no Vale sobre o culto do contrariante.
  • IPESPE/Abrapel (22/10, rodada 3) e Meio/Ideia (10 ondas). São os dados para testar no 2º turno brasileiro a tese de Yglesias sobre moderação.