Radar · Voices

26.10.26

Segunda-feira Edição nº 205

O gênio perde sem tiquitaca

📡 RADAR VOICES — 2026-10-26

§ 01

A leitura do dia

Timothy Garton Ash é a única voz do dia lida na íntegra. Os dois concorrentes estão atrás de paywall e nem são das vozes monitoradas: são convidados. Mas ele venceria mesmo com concorrência, porque escreveu sobre a confiança na democracia liberal sob uma enxurrada de engano. Para um leitor brasileiro na manhã seguinte a um 2º turno, nenhum outro texto da semana fala tão de perto.

Começa por uma gafe. Em Oviedo, para receber o Prêmio Princesa de Astúrias de Ciências Sociais, Garton Ash saiu do hotel e ouviu a multidão gritar o nome de outro: "'Messi! Messi!' the crowd chanted, as I emerged from the Hotel de la Reconquista". Messi levava o prêmio de Esporte. O historiador teve vontade de dizer que era só ele. O texto é o discurso de aceitação, dirigido à princesa Leonor, nascida em 2005. Para Garton Ash, aquele foi o ano de mais liberdade, paz e integração na Europa. Hoje tudo o que o continente construiu desde 1945 estaria sob ameaça existencial, e a guerra na Ucrânia já dura mais que a Primeira Guerra, com até dois milhões de mortos e feridos. Ele pede três coisas à geração de Leonor. A primeira é compromisso com a verdade diante de uma nova "sinfonia de engano". A segunda é recuperar a confiança na democracia liberal. A terceira é o tiquitaca.

A melhor ideia do texto está no futebol. A Espanha campeã do mundo, de passe rápido e disciplina, venceu este ano a Argentina "bagunçada" de Messi na final. Nesse jogo, cada um sabe onde o outro está e também onde estará dali a uns cinco segundos. A gafe de Oviedo vira tese: a multidão procura o gênio, e o gênio sozinho perde a final. "Success requires both individual genius and sophisticated teamwork." O ponto frágil está à vista. Uma metáfora de futebol vale enquanto o placar ajuda, e uma final perdida pela Espanha teria desmontado a imagem. Garton Ash não precisa do placar, porém. Precisa da diferença entre um time que antecipa o passe e outro que espera o craque resolver.

A "sinfonia de engano" vem de Marc Bloch, o historiador que estudou os boatos e as notícias falsas no front da Primeira Guerra: "it was as if a vast symphony of deception resounded from one end of Europe to the other". Garton Ash aplica a expressão às redes, à IA, às potências hostis e a "algumas pessoas em lugares muito altos". Bloch escreveu sobre trincheiras sem jornal confiável. A versão de hoje tem jornal de sobra e confiança de menos.

Relevância para Pedro: A coluna do Globo do pós-2º turno pode usar a pergunta de Garton Ash à princesa e trocar Leonor pelo eleitor brasileiro que chega às urnas sem confiar na democracia liberal. No livro da Nova República, o tiquitaca confirma a leitura de que o pacto de 1988 saiu de jogo coletivo, e não de um salvador. O Bloch das trincheiras dá a um PdP sobre desinformação uma genealogia mais antiga que as redes.

🔗 Lionel Messi and the future of Europe — History of the Present


§ 02

Publicados mas sem acesso

2 itens
  • Patrick Chamorel, convidado da série American Purpose: The French Riots Are a Mirror Into the Country's Future (Persuasion)
  • Halina Bennet, convidada: The polls were fake, but the results were real (Slow Boring)

§ 03

Cruzamento — do radar ao vault

Timothy Garton Ash — Lionel Messi and the future of Europe × [[A Pátria de Chuteiras Descalça — Esporte, Heróis e o Fim da Ideia de Brasil]] Tipo (Boden): combinatória

Garton Ash usa a mesma oposição de Freyre, o gênio que improvisa contra o coletivo europeu disciplinado, mas dá o valor ao outro lado: é a conta que o ensaio do vault cobra do Brasil, que apostou a identidade no craque e ficou sem camada por baixo quando o craque parou de chegar.

O laço é de forma, porque os dois textos usam a mesma oposição. De um lado estão o futebol-arte, o herói de Campbell que "parece que vai perder e triunfa" (Senna, Neymar) e a Argentina "bagunçada" que espera Messi. Do outro estão a rigidez europeia de Freyre e o tiquitaca, em que cada jogador sabe onde o outro estará dali a cinco segundos. O ensaio do vault diz que as referências nacionais que duram são as que "não dependem de audiência": República, Constituição, Parlamento. O tiquitaca de Garton Ash dá a essa camada institucional uma imagem que o ensaio não tinha. Instituição é saber onde o outro vai estar sem ninguém precisar ver o lance. A multidão de Oviedo gritando "Messi!" é a audiência procurando o herói. O ensaio do vault mostra o que sobra a um país que só tinha isso para gritar.


§ 04

Ponte com o Brasil

Garton Ash pede a uma geração que volte a confiar na democracia liberal enquanto a sinfonia de engano toca. No Brasil de hoje, a pergunta é a mesma e não tem resposta pronta. A resposta depende do resultado e dos dados, que ainda não foram lidos. A gafe de Oviedo fica como advertência de método: a multidão aplaudiu o carro errado porque já sabia quem esperava.

§ 05

Top of mind

3 itens
  • Pesquisas finais da véspera: Datafolha, Quaest, Atlas/Bloomberg, Gerp e a 19ª rodada da BTG-Nexus, para comparar com as urnas. O título de Bennet serve só de gancho de pauta. O texto não foi lido.
  • Zanin, Rcl-101673 (25/10, "urnas fechadas"): decisão do STF na véspera do 2º turno. O conteúdo ainda não foi lido.
  • Nota do Fórum de 10/10 (Ortellado, Wilson Gomes e outros) sobre o 2º turno e matéria da BBC Brasil sobre polarização histórica: servem de base se Pedro quiser trazer vozes brasileiras para a ponte.